terça-feira, 13 de novembro de 2012

Priorizar, sem desprezar!

Não me considero retrógrada, entendo perfeitamente a preferência da Igreja que nos últimos anos nos instiga à Iniciação Cristã, priorizando os adultos e sei também o porquê  do pedido (devemos cuidar para não fazermos a leitura ao pé da letra e não priorizar um, desprezando o outro). Não sou alienada, faço parte dessa sociedade de adultos batizados, não iniciados, católicos nada comprometidos. A missão da Igreja é evangelizar, fazer discípulos missionários... E quando dizemos "Igreja", nos referimos a todos: Bispos, padres, ministros, catequistas, todas as pastorais (todas!!!) e movimentos. Temos  grandes progressos, iniciativas lindas em se tratando da Iniciação à Vida Cristã.

Porém, em muitos lugares, ainda se tem a idéia de que cabe aos catequistas a missão de evangelizar e  se existem "católicos" inconstantes, incrédulos, nada comprometidos, isso se deve unicamente a "essa" catequese falha. Que tal, nos unirmos e mostrarmos que de fato ‘somos um’ em Cristo e que todos devemos assumir nosso compromisso de batizados.  Não seria essa a pastoral de conjunto que muitos documentos pedem?  Iniciação Cristã é papel de toda Igreja. Infelizmente ainda fazemos parte de uma Igreja, onde  cada pastoral está no seu quadrado.

Incomoda-me  quando ouço  de palestrantes, lideranças,  formadores, um certo desprezo com relação à catequese com crianças, adolescentes. Precisamos sim, ter consciência que a Iniciação à Vida Cristã, acontece num processo de catequese continuada, rumo ao amadurecimento na fé, que em muitos casos, inicia-se na idade infantil. A questão é iniciar  na fé, todos os que nos são confiados.  Se iniciamos os pequeninos,  deixemos de lado a catequese infantilizada, sacramentalista,  os formemos de maneira adulta, na certeza de que essa remessa serão os adultos cristãos de amanhã. Se tivermos essa preocupação, alguém lá na frente não vai precisar "retocar" nosso trabalho, se ocupando em evangelizar os adultos que outrora foram nossos catequizandos. Depois, quem trabalha com crianças, adolescentes, jovens, tem em suas mãos uma grande oportunidade de evangelizar e tocar os corações da família. Pois, não seria na catequese com crianças, o lugar onde se concentra o maior número de adultos? Quantos desses foram de fato iniciados na fé? O que não se concebe é não ter um trabalho de evangelização paralelo com essas famílias no período da catequese.

Por outro lado, devemos sim, correr atrás do prejuízo, evangelizando os  demais adultos de nossa comunidade, através de uma eficaz catequese de Iniciação com adultos. A propósito, em sua paróquia existe um trabalho organizado para acolher os adultos que querem se tornar cristãos? E melhor, existe um trabalho missionário, que vá em busca desses adultos? Se não! Está na hora de elaborar um plano de ação.
  
Termino essa minha fala com as palavras de Pe Boris: "Acredito muito na força dos catequistas, ministros da Palavra, não porque sejamos fortes, mas porque servimos aquele que é a força da vida, que é o nosso Deus que se manifesta, se revela não só nas Escrituras, mas de diversas formas, e nós somos servidores da Palavra, portanto, portamos um tesouro valioso dentro de nós e que habita no nosso meio." (Pe Boris Agustin Nef Ulloa- 1º Simpósio Animação Biblica da Pastoral - regional sul 1- CNBB)

E é esse tesouro valioso que precisamos fazer conhecido e amado por todos, não se detendo nessa ou naquela faixa etária. Sabe qual foi a fonte de inspiração para esse meu texto? Foi quando na noite de ontem, uma catequista,  partilhava comigo  sobre como teria sido seu encontro com os pais de sua turma, uma turma de pré catequese, crianças de 07, 08 anos. Uma mãe, emocionada dá seu testemunho, ela dizia que sua filhinha de 07 anos tinha duas coisas que sonhava, uma delas, era que a mãe participasse da missa com ela, pois até então, ia à missa com a avó. Essa mãe, resolve atender ao pedido da filha. Agora, se essa mãe não tivesse sido tocada por Deus, através da filha, ela teria dado esse testemunho? Por isso, insisto, essa etapa é a oportunidade de evangelizar um monte de adultos. Cabe ao catequista, perceber o momento de agir e não ficado acomodado esperando a hora da graça passar.

Sendo assim, trabalhemos com afinco, com crianças, adolescentes, jovens e adultos, tendo um carinho todo especial pelos adultos afastados(sem radicalismo), pois os adultos, cujos filhos estão na catequese, estão bem perto de nós e essa é a hora de evangelizá-los.

Com carinho!
Imaculada Cintra, catequista apaixonada pelos pequenos, mas, consciente de que sou catequista de “IVC”, com a missão de formar os futuros adultos cristãos e evangelizar hoje os adultos afastados, batizados não evangelizados...

http://catequeseebiblia.blogspot.com.br/

domingo, 11 de novembro de 2012

A maturidade


A maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos


A maturidade faz parte de um processo. Em um processo não podemos queimar etapas. Ele é lento, chato e demorado. Uma criança passa por um momento de amadurecimento a partir do momento em que começa a brincar. A maturidade acontece quando tomamos posse do que nós somos, para que então possamos nos dividir com os outros. Isso faz parte do processo de maturidade. Não nascemos amando, pelo contrário, queremos ter a posse dos outros. Essa é a forma de amar da criança, pois ela não consegue pensar de maneira diferente. Ela não consegue entender que o outro não é ela. Quantas pessoas já adultas pensam assim, trata-se da incapacidade de amar, da falta de maturidade. Todos os encontros de Jesus levam à implantação do Reino de Deus. Mas só pode implantá-lo quem é adulto, quem já entende que só se começa a amar a partir do momento em que não queremos mudar a quem amamos.

Geralmente quando tememos alguém ruim ao nosso lado é porque nos reconhecemos nessa pessoa. Jesus não tinha o que temer porque era puramente bom, por isso contagiava os que estavam ao Seu lado e não temia ninguém. Na maturidade de Jesus você encontra a capacidade imensa de amar o outro como ele é. Amar significa: amar o outro como ele é. Por isso quando falamos em amar os outros, podemos perceber o quanto deixamos de ser crianças. Devemos nos questionar a todo o momento com relação à nossa maturidade. A santidade começa na autenticidade. Por essa razão Jesus nos pede que sejamos como as crianças, que são verdadeiras e simples. É nisso que devemos manter da nossa infância e não na forma de querer possuir tudo.

Você tem condições de perceber a sua maturidade. É só observar se você é obediente mesmo quando não há pessoas ao seu redor. Você não precisa que ninguém o observe, pois você já viu aquilo como um valor. Pessoas imaturas sofrem dobrado, porque querem modificar os fatos; ao passo que pessoas maduras deixam que os fatos as modifiquem. A maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. Um imaturo ganha um limão e o chupa fazendo careta. O maduro faz uma limonada com o limão que ganhou.

Muitas vezes, os nossos relacionamentos de amizade são um fracasso porque somos imaturos. Amigos não são o que imaginamos, mas o que eles são e com todos os defeitos. Amizade é processo de maturidade que nos leva ao verdadeiro encontro com as pessoas que estão ao nosso lado. Elas têm todos os defeitos, mas fazem parte da nossa vida e não as trocamos por nada deste mundo. Isso porque temos alma de cristão e aquele que tem alma de cristão não tem medo dos defeitos dos outros, porque sabe que aqueles defeitos não serão espelhos para nós, mas seremos um instrumento de Deus para que eles os superem.

Padre só pode ser padre a partir do momento em que é apaixonado pelos calvários da humanidade. Se você não consegue lidar com os limites dos outros é porque você não consegue lidar com os seus limites. A rejeição é um processo de se ver. Toda vez que eu quero buscar no outro o que me falta, eu o torno um objeto. Eu posso até admirar no outro o que eu não tenho em mim, mas eu não tenho o direito de fazer dele uma representação daquilo que me falta. Isso não é amor, isso é coisa de criança. O anonimato é um perigo para nós. É sempre bom que estejamos com pessoas que saibam quem somos e que decisões nós tomamos na vida. É sempre bom estarmos em um lugar que nos proteja. Amar alguém é viver o exercício constante de não querer fazer do outro o que nós gostaríamos que ele fosse. A experiência de amar e ser amado é, acima de tudo, a experiência do respeito.

Como está a nossa capacidade de amar? Uma coisa é amar por necessidade e outra é amar por valor. Amar por necessidade é querer sempre que o outro seja o que você quer. Amar por valor é amar o outro como ele é, quando ele não tem mais nada a oferecer, quando ele é um inútil e por isso você o ama tanto. Na hora que forem embora as suas utilidades, você vai saber o quanto é amado. Tudo vai ser perdido, só espero que você não se perca. Enquanto você não se perder de si mesmo você será amado, pois o que você é significa muito mais do que você faz. O convite da vida cristã é este: que você possa ser mais do que você faz!
Foto
Padre Fábio de Melo

Padre Fá¡bio de Melo, sacerdote da Diocese de Taubaté, mestre em teologia, cantor, compositor, escritor e apresentador do programa "Direção Espiritual" na TV Canção Nova.

sábado, 10 de novembro de 2012

11 de Novembro de 2012 – 32º Domingo do Tempo Comum


Evangelho de Marcos 12, 38-44
“Ela não deu esmola, deu tudo o que tinha para viver!”
Jesus ensinava, dizendo: “Tomai cuidado com os escribas. Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser saudados nas praças públicas, de ocupar as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Eles terão sentença mais severa”. Jesus estava sentado diante do cofre de esmolas e observava como o povo depositava as moedas. Muitos ricos depositavam muitas moedas. Veio, então, uma pobre viúva e pôs no cofre apenas duas moedinhas no valor de alguns centavos. Jesus chamou os discípulos e lhes disse: “Eu vos asseguro: esta pobre viúva deu mais do que todos os que depositaram no cofre. Pois todos eles deram do que lhes sobrava; ela, porém, na sua indigência, deu tudo que tinha, todo o seu sustento”.
COMENTÁRIO
Mais uma vez nos encontramos para meditarmos a Palavra de vida e salvação de Deus. Hoje nos encontramos com Jesus denunciando a hipocrisia dos fariseus e elogiando o gesto generoso de uma viúva pobre. 
As aparências enganam, diz Jesus. Não se deixem iludir por aquilo que seus olhos vêm. Esses doutores da lei que deveriam dar o exemplo, justamente eles que deveriam ter uma conduta exemplar, são na verdade enganadores e exploradores. Fazem uso dos altos cargos que ocupam em benefício próprio.
Aqueles que deveriam ser guias e protetores do povo eram sim exploradores. Exploravam as viúvas e roubavam suas casas. Eram lobos disfarçados de cordeiros. A aparente mansidão servia para encobrir a falsidade. 
A Palavra de Deus é sempre atual, nunca envelhece. Há dois mil anos Jesus denunciava os abusos cometidos pelos donos do poder e, no entanto, parece que foi ontem que tudo isso aconteceu. De lá para cá, quase nada mudou, continua igual a forma de agir e de pensar das pessoas.
Jesus chama nossa atenção para o comportamento hipócrita de certos líderes religiosos que fazem da religião o seu meio de vida. Em nome de Deus, constroem impérios à custa do suor dos seus fiéis seguidores, as "viúvas" da atualidade. 
Disfarçam-se de cordeiros, conhecem profundamente a lei, são capazes de interpretá-la ao pé da letra, sabem de cor os capítulos e os versículos, falam muito bonito, mas não vivem o que dizem. 
Esse evangelho é muito mais amplo e atual do que parece. Os doutores da lei e os escribas mencionados, não são somente dirigentes religiosos. Suas funções são as mais diversas. São também homens públicos, são dirigentes de grandes autarquias e políticos que se autodenominam cristãos, mas se comportam como verdadeiros pagãos.
Não exercem com sinceridade e humildade o cargo de responsabilidade que ocupam e fazem do templo um palanque político. Fazem questão de serem notados. Onde houver um banquete, lá estão eles perfumados, elegantes e muito bem vestidos. Com suas roupas luxuosas e com suas esposas muito bem trajadas, são os primeiros a chegar na igreja, e sempre ocupam os primeiros bancos.
De forma bem aberta e clara, Jesus reprova o comportamento dessas pessoas. Diz que são arrogantes, vaidosas e que se escondem atrás das aparências. São capazes até de ofertarem grandes somas para mostrar generosidade. Na verdade, estas grandes somas são migalhas, são pequenas sobras dos rios de dinheiro que desviam e que recebem injustamente. 
A verdadeira piedade consiste numa total entrega a Deus, colocando-se a seu serviço. O que a pobre viúva fez parece pouco, mas significa muito mais do que as gordas esmolas dos ricos. Sua consciência a fez enxergar como o seu pouco poderia tornar-se muito. Ela não ofertou restos, tirou de si própria e dividiu. 
A boa notícia de hoje chama-se amor, e nos vem através do desapego desta viúva. Ela ensina que, no gesto concreto o cristão vive a caridade e a partilha, porque ser cristão é servir... e servir é amar.
http://www.miliciadaimaculada.org.br

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Família: A Igreja doméstica


- "O Senhor disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele" (Gn 2,18). O Senhor Deus quis dar a Adão uma auxiliar semelhante a ele e o simbolismo de Eva tirada da costela de Adão (cf. Gn 2,22) fala desta igualdade que exclui toda idéia de dominação ou subordinação servil. Ora, ninguém deveria bastar-se numa auto-suficiência narcisista e egocêntrica. O "eu" é essencialmente chamado a construir-se dinamicamente na interação dialógica com um "tu" para construir um "nós". O "eu" foi chamado a ser um dom para o tu e vice-versa. A realidade da pessoa humana como um ser comunitário, social e que partilha, não é outra coisa, no plano de Deus, que um ensaio cuja meta é viver a comunhão trinitária: na diversidade construindo a unidade. As Três divinas e distintas Pessoas, maravilhosamente consumidas na unidade, apresentam-se como esta fonte; um mistério que nos faz pensar que a criação do homem à imagem e semelhança de Deus significa também perceber-se como um alguém essencialmente chamado à comunhão. 

A diversidade é riqueza e a unidade é um referencial obrigatório para um êxodo de amor (sair de si, construir pontes num movimento de busca do outro que se consolida na partilha). A diferença, longe de ser uma ameaça, apresenta-se como uma possibilidade que desafia e enriquece, vitaliza, desinstala e renova. 

Os conflitos podem ser lidos na ótica de possibilidades novas e inusitadas para um crescimento recíproco: pedras que se chocam, se lapidam. Não existe, no plano de Deus, o achatamento empobrecedor da repetição automática: os clones destroem a sacralidade inquestionável de ser pessoa, ou seja, um alguém único e irrepetível. A diferença dos sexos não afeta esta igualdade de dignidade entre homem e mulher; tal diferença estava na mente de Deus em ordem à complementaridade. "A verdade é que toda história humana, se partilhada com outra pessoa como um ato de amor, alarga a mente e aquece o coração desta pessoa". Um é chamado a precisar do outro para se auto-definir, descobrir-se e para ajudar a construir, enriquecer o outro. É um movimento em via de mão dupla. E nesta linha de raciocínio nós entendemos o que Deus pensa da família. 

"Homem e mulher Ele os criou" 

"E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou" (Gn 1,27). Nos planos do Criador, esta realidade de família se construirá positivamente quando o homem e a mulher assumirem consciente e responsavelmente os próprios papéis. 

A mulher é chamada a ser capaz de acolher, acompanhar, perceber e escutar, dotada de delicadeza e fantasia, levada a ser materna, acolhedora do invisível e do essencial, intuitiva e sensível. 

O homem, por sua vez, torna-se capaz de projetar, executar, decidir, defender, proteger paternalmente, de plasmar e criar prevalentemente para a sociedade. A maturidade masculina se manifesta na fantasia produtiva e na força volitiva. E estas duas realidades são chamadas a integrar-se num dinamismo próprio de quem ama, reconhecendo no outro não alguém vago e distante, mas um "tu" próximo, referencial enriquecedor. 

Nesse sentido, a capacidade de relacionamentos sólidos e duradouros não pode se limitar ao conhecimento superficial e à prática de relações tão somente funcionais, mas envolve sobretudo relacionamentos amigáveis, abertos a uma positiva capacidade de intimidade, afinidade, familiaridade e afetuosidade. A sexualidade, enquanto realidade ampla, dialogal, a serviço da comunhão e da vida, é algo que descarta fechamentos egoístas e manipulações desumanizadoras e paganizantes. 

A produtividade leva as pessoas a trabalharem de modo criativo e profícuo, a realizar e organizar algo de novo, a não repetir mecanicamente o que outros já fizeram. Dessa maneira, a diversidade humana e complementar da masculinidade e da feminilidade se dispõem a fazer um uso responsável e coerente dos talentos recebidos, valorizando-os e fazendo-os multiplicar (cf. Mt 25,14-30). 

Paternidade e maternidade 

A paternidade e maternidade não serão realidades asfixiantes ao ponto de serem usurpadores da individualidade de cada filho, pessoa chamada a auto-construir-se com os outros. A realidade familiar da acolhida e da educação dos filhos se abrirá progressivamente a uma descoberta do dom da vida dos filhos, chamados a atingir gradativamente uma autonomia própria. Os pais e educadores serão como jardineiros (oferecerão as condições) e os filhos são tais como as plantas (que crescerão a partir das próprias raízes, tronco, galhos e folhas) e que a seu tempo deverão produzir seus frutos. "Os humanos, como as plantas, crescem no solo da aceitação, não na atmosfera da rejeição".Os pais não substituem os filhos, os quais não são uma continuação em chave de dependência parasitária. O "eu" de cada filho não pode confundir-se com o "tu" do pai e com o "tu" da mãe. A identidade não pode ser distorcida ou confundida na auto-construção. Porém, o processo educativo não descartará, mas se fundamentará na busca de apresentar valores e princípios que ajudem os filhos a serem livres, responsáveis, de modo que eles abram-se ao dom da fé e a ele correspondam com convicções brotadas de uma experiência pessoal com Deus. 

Célula eclesial 

E quando é que compreenderemos a realidade da família como Igreja? O princípio da atração e do amor do homem pela mulher e vice-versa brota de um mistério muito grande. Diz S. João Crisóstomo: "Pois Cristo formou a Igreja de seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa. (...). E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte". Por isso, S. Paulo afirma que este mistério é grande e o matrimônio não se reduz a uma parceria de partilha da companhia do outro enquanto parceiro (a), mas brota do mistério da relação entre Cristo e sua Igreja (cf. Ef 5,32). 

A família enquanto célula da sociedade é, por desejo de Deus, chamada a ser uma célula eclesial, uma igreja doméstica, uma igreja de casa, uma casa que se torna uma pequena igreja. É assim que a Igreja será uma grande família: se as famílias forem realmente igrejas; igrejas vivas, atuantes, fermentadas pelo amor traduzido em comunhão, celebrando e cultivando a vida, acolhendo o mistério da Trindade-Comunidade para irradiá-lo no testemunho ao mesmo tempo humilde e corajosamente generoso. 

A sociedade atual, tão marcada pelo individualismo, pelo utilitarismo, pelo materialismo, pelo hedonismo, pela perda do sentido dos valores morais, pelo medo e pela relativização dos compromissos definitivos, pelo neo-paganismo tem deixado seus efeitos nefastos e corrosivos na realidade familiar. Os jovens se encontram diante de uma variedade de propostas de modelos contrastantes. O pluralismo não permite um quadro unitário de valores. Porém, não será impossível à graça divina fazer acontecer este milagre da comunhão e do amor à serviço da vida. 

Jesus crescia sob os olhares atentos e amorosos de José e de Maria "em sabedoria, estatura e em graça, diante de Deus e diante dos homens" (Lc 1,52). E isso na simplicidade impressionante e aparentemente sem valor da realidade monótona e obscura de Nazaré. Também hoje, estes reflexos luminosos e transfiguradores do mistério do Verbo eterno na sua vida oculta precisa acontecer nas crianças e nos jovens. E para assisti-los, o Senhor quer encontrar continuadores nos homens e mulheres de boa vontade, assim como Ele encontrou Maria e José. A igreja doméstica, apesar de tudo e de todos, continuará sendo uma resposta do Deus Trindade para um problema: "não é bom que o homem esteja só" (Gn 2,18). 

Pe. Antônio Marcos Chagas

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

5 de novembro São Zacarias e santa Isabel

Embora os nomes desses santos não estejam presentes no calendário litúrgico da Igreja, há muitos séculos a tradição cristã consagrou este dia à veneração da memória de são Zacarias e santa Isabel, pais de são João Batista. 

Encontramos a sua história narrada no magnífico evangelho de são Lucas, onde ele descreveu que havia, no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Abias; a sua mulher pertencia à descendência de Aarão e se chamava Isabel. Eles viviam na aldeia de Ain-Karim e tinham parentesco com a Sagrada Família de Nazaré. 

Foram escolhidos por Deus por sua fé inabalável, pureza de coração e o grande amor que dedicavam ao próximo. Isabel, apesar de sua santidade, era estéril: uma vergonha para uma mulher hebréia, que era prestigiada somente através da maternidade. Mas foi por sua esterilidade que ela se tornou uma grande personagem feminina na historia religiosa do Povo de Deus. Juntos, foram os protagonistas dos momentos que antecederam o mais incrível advento da historia da humanidade: a encarnação de Deus entre os seres humanos. 

Estavam velhos, com idade avançada, e como não tinham filhos, julgavam essa graça impossível de ser alcançada. Foi quando o anjo do Senhor apareceu ao velho sacerdote Zacarias no templo e disse-lhe que sua mulher, Isabel, teria um filho que teria o nome de João, que significa "o Senhor faz graça". O menino seria repleto do Espírito Santo desde a gestação de sua mãe, reconduziria muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus e seria precursor do Messias. 

Zacarias, inicialmente, manteve-se incrédulo ante o anúncio celeste do nascimento de um filho pelo qual havia rezado com tanto ardor; para que pudesse crer, precisou de um sinal: ele ficou mudo até que João veio à luz do mundo. Na ocasião, sua voz voltou e ele entoou o salmo profético em que, repleto do Espírito Santo, profetizou a missão do filho. 

Enquanto isso, devido à proximidade da maternidade, Isabel recolheu-se por cinco meses, para estar em união com Deus. Os dias ela dividia em três períodos: de silêncio, oração e meditação. E foi assim que Isabel, grávida de João e inspirada pelo Espírito Santo, anunciou à Virgem Maria, sua prima, quando esta a visitou: "Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre". 

Após o nascimento de João, Zacarias e Isabel recolheram-se à sombra da fama do filho, como convém aos que sabem ser o instrumento do Criador. Com humildade, alegraram-se e satisfizeram-se com a santidade da missão dada ao filho, sendo fiéis a Deus até a morte.



http://www.paulinas.org.br

sábado, 3 de novembro de 2012

04 de Novembro de 2012 – Solenidade de Todos os Santos


Evangelho de Mateus 5, 1-12a
“Será grande a vossa recompensa nos céus!”
Ao ver aquela multidão de povo, Jesus subiu ao monte. Quando sentou-se, os discípulos se aproximaram, e Jesus começou a ensiná-los: “Felizes os que têm espírito de pobre, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Felizes sereis quando vos insultarem e perseguirem e, por minha causa, disserem todo tipo de calúnia contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus. Foi assim que perseguiram os profetas antes de vós”.
COMENTÁRIO
Hoje comemoramos Todos os Santos, em particular aqueles que não estão no altar. Lembramos hoje dos cristãos que viveram o evangelho, que fizeram da Palavra de Deus o seu estilo de vida, que souberam seguir Jesus com fidelidade, e que agora se encontram na presença de Deus na Glória Celeste. Nossas homenagens aos bem-aventurados que souberam viver o amor. 
O sermão da montanha ou das bem-aventuranças, como é conhecido, é um dos mais expressivos ensinamentos de Jesus. As bem-aventuranças são o resumo de todas as expressões de amor fraterno. De maneira clara enaltecem o pobre, o que sofre, o que luta por justiça, o injuriado, o perseguido...
Jesus diz que: quanto mais misericordiosa, mansa, humilde e pura de coração for a pessoa, maior é a chance de receber a grande recompensa no céu. Chama de Bem-aventurados os que promovem a paz num mundo tão conturbado e individualista.
Falecidos ou não, hoje lembramos de todos os santos. Homens e mulheres, dotados de total desprendimento e doação. Filhos de Deus que souberam ver em cada próximo um irmão. No anonimato, confiantes, abraçaram o ideal do evangelho e amaram intensamente, sem divisões nem restrições. 
Deus nos ama profundamente e quer que nos amemos uns aos outros com amor tolerante, sincero e fraternal. É esse amor que Jesus ressalta em cada uma das bem-aventuranças. Elas afirmam que, quem vive o amor já é santo. Fomos feitos para a santidade, portanto, só há uma alternativa; ser santo ou nada!
A santidade nos espera. A santificação deve ser o nosso ideal. Ser santo é ser pobre em espírito, é confiar plenamente em Deus. É apoiar-se na graça de Deus e compartilhar do sofrimento dos irmãos. É chorar com os que choram, é partilhar os bens e aliviar a dor dos menos favorecidos.
O santo procura ser manso e caridoso com as pessoas, mesmo quando estas não são amáveis. O santo segue Jesus com fidelidade, pratica a justiça e a fraternidade; é misericordioso, sabe dividir e não é mal intencionado. O santo é um apaziguador, reflete harmonia e, acima de tudo, é um construtor da paz.
É preciso no entanto, persistência e muita coragem, pois o santo é também um sério candidato ao martírio. Quem vive as bem-aventuranças é presa fácil da injúria. Assim como Jesus, o santo será perseguido e até mesmo morto pelos inimigos da verdade, da justiça e da paz. Poderá ainda, ser humilhado e martirizado por aqueles que fazem da morte o seu meio de vida.
É poderosa a minoria que sobrevive da opressão, do desemprego, da inflação, também do tráfico de drogas e do aliciamento de menores... são perigosos os abutres que encontram na podridão a sua subsistência. O santo, porém, é muito mais forte, não vira o rosto para as verdades. Tudo vê e jamais fecha os seus olhos. 
O construtor da paz incomoda com sua presença e grita bem alto as falcatruas. O bem-aventurado clama por um mundo de amor, onde haja vida e liberdade. Ser santo, essa é a única alternativa para quem quer ganhar sua recompensa no céu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Todos os Santos


Dom Pedro Carlos Cipolini
Bispo de Amparo (SP)
Dia primeiro de novembro comemora-se o dia de todos os santos. A santidade fascina e atrai, como o mel atrai a abelha. Todos sabem que santo é quem encontrou o caminho da felicidade verdadeira no meio das contradições da vida.
A Bíblia ensina só Deus é santo. Ele, porém, comunica a santidade, é um Deus santificador, deseja um povo santo: “Sede santos, porque eu sou santo”(Lv. 19,2;20,26). A santidade de Jesus é idêntica à de seu Pai Santo (Jo 17,11). Jesus santifica os cristãos pela força do Espírito Santo. Ele recomenda: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt. 5,48). Portanto, a santidade é vocação de todo cristão: “A vontade de Deus é esta: a vossa santificação”(1Tes.4,3).
Ser santo segundo a Bíblia é cumprir a vontade de Deus e assim realizar-se como ser humano. Eles não ocupam o lugar de Deus, nem são inventados pelos homens, são criaturas de Deus, a quem Ele privilegiou com mor especial, e viu este amor ser correspondido. Eles são reconhecidos como santos, porque foram amigos íntimos de Deus que os santificou. Os santos são heróis da fé vivida no amor. É o amor que santifica e salva.
No catolicismo não se adoram santos, mas se respeita e venera, como amigos de Deus. Esta atitude vem da fé na ressurreição, já que, os que morrem no Senhor estão com Ele. Reinam com Ele (Ap 4,4) e intercedem por nós (Ap 5,8).
A Bíblia mostra que Deus opera milagres pela intercessão dos santos. Um exemplo é a cura do coxo operada por são Pedro e são João: “Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho isto te dou. Em nome de Jesus Cristo levanta-te e anda” (At. 3,1-9).  Nos apresenta outros exemplos, afirmando que “Deus fazia não poucos prodígios por meio de Paulo” (At. 19,11-12). No entanto, Jesus é o único mediador entre Deus e os Homens: “O Pai dará a vocês tudo o que pedirdes em meu nome” (Jo15,16).
Um santo opera em nome de Jesus porque só Nele está a fonte da graça e da força. Os santos colocam em evidência a glória e santidade de Cristo, cabeça da Igreja. Pois foi Ele mesmo que afirmou: “Eu garanto a vocês: quem crer em mim, fará as obras que eu faço, e fará maiores do que estas” (Jo 14,12). Ninguém pode ser santificado sem entregar sua vida a Jesus presente nos irmãos. Honrar um santo é reconhecer a força transformadora da Palavra de Deus que santifica quem a aceita e a coloca em prática.
O santo é para o cristão exemplo de quem testemunhou sua fé no seguimento de Jesus. O cristão tem a alegria de abrir o álbum de família – a família na fé – e contemplar uma fileira de heróis: os santos, nossos irmãos e amigos. Conseguiram servir a Deus com fidelidade e junto de Deus pedem por nós.
Os santos formam a multidão dos que souberam permanecer despertos, alertas, livrando-se das ilusões e alienações. Foram capazes de renunciarem a si mesmos, ou seja, o seu ego, seu egoísmo suas máscaras, e fazerem a viagem que importa: a viagem para o “centro da alma”, onde Deus nos espera (Jo14,23) para se revelar a nós e revelar-nos a nós mesmos. Santos e santas, rogai a Deus por nós!